Muito se tem falado da preparação inadequada dos profissionais que assumem a presidência das empresas. E por isto está ocorrendo uma grande rotatividade nesta função. Parte desta rotatividade é fruto de demissões por não atendimento das metas. As estatísticas mostram que hoje de três mudanças no cargo, uma é gerada por demissão.
Vários levantamentos indicam que os presidentes duram cada vez menos tempo no cargo. Nos últimos anos a média do tempo nesta função, em grandes empresas, caiu assustadoramente, algo em torno de dez para cinco anos. E esta tendência não está sendo revertida ou mesmo estabilizada.
Este fato remete-nos a fazer uma analogia de empresa com um clube de futebol e da função de presidente com a de técnico de futebol. Se os resultados não vêm em curto prazo, a culpa é sempre dos técnicos. São substituídos em função da grande pressão da torcida (acionistas minoritários) e pouca paciência e competência dos diretores (acionistas majoritários) para administrar esta pressão.
Os torcedores, assim como os acionistas minoritários, só têm olhos para os resultados imediatos. Esta massa não tem poder de decisão, mas faz um barulho danado. Não está interessada em analisar se há condições para obter os resultados sonhados, e a maior parte deles não tem competência para fazer uma análise imparcial dos dados reais. O desejo da rentabilidade imediata fala mais alto que a razão.
Na verdade adoram se iludir ou serem iludidos pelos que têm alguns interesses próprios no negócio e que politicamente pertencem à ala da oposição, às vezes saudável e às vezes não.
Então como se preparar para assumir ou se manter na presidência de uma empresa?
Há técnicos que foram jogadores e aprenderam o ofício na prática; já outros foram jogadores e fizeram cursos a fim de se especializar na nova função. Há ainda os técnicos que originalmente cursaram a faculdade de educação física, se especializaram neste esporte, e após exercerem esta atividade em clubes, migraram para a nova função.
Muitos “acionistas” de empresas familiares, com intenção de profissionalizar o seu negócio, pertencem ao primeiro grupo e tem dificuldades de se relacionar com um contratado que se preparou para o cargo de uma outra forma. Não é raro nestes casos um acionista ter ciúmes e “competir” internamente com um contratado, com ampla desvantagem para o profissional, e resultados insatisfatórios para a empresa. A culpa pelas dificuldades fica com o profissional demitido.
Até agora não se descobriu qual o melhor caminho, ou o pré-requisito, para obter sucesso na carreira de técnico. O diploma universitário com certeza não é garantia. Mas não deixa de ser um diferencial, mesmo que seja só para se expressar melhor em público, ou para seduzir um dirigente que associa o diploma à competência real.
Em todos os casos citados, alguns profissionais alcançaram o topo e outros não. Outros ainda alcançaram o sucesso em um clube e não conseguiram repeti-lo em outro. Será que desaprenderam ou as condições no novo clube eram insuficientes para qualquer técnico? As duas respostas podem ser verdadeiras, pois o técnico pode estar acomodado e/ou desatualizado. Tudo é possível e previsível.
A história futebolística mostra que, quando as condições são adequadas e um técnico bem preparado, com certificado de doutorado ou não, tem tempo suficiente para sedimentar a sua forma de trabalhar, os resultados aparecem, mesmo que a mão de obra escalada não seja toda constituída por grandes “experts”. Atores certos nos papeis certos. A motivação para fazer dar certo, sabendo que a recompensa pelo comprometimento é o atendimento dos interesses individuais de todos os participantes, leva o grupo a atingir os objetivos.
Nem sempre o objetivo é vencer o campeonato, ser o líder. Um objetivo realista definido em função de condições reais para alcança-lo é o básico para o início do relacionamento produtivo, com transparência e credibilidade.
Acreditar de fato que o objetivo pode ser alcançado. É aí que entra a liderança em todos os níveis, a começar pela presidência: acreditar e fazer crer.
Raramente um técnico de futebol é, ou foi, mais habilidoso que a maioria dos especialistas da sua equipe. Mas ele sabe para onde e quando a bola deve ser rolada. Estuda como o adversário joga (mercado – no caso das empresas) e repassa este conhecimento para a sua equipe. Quando eles acreditam na competência dele em traçar estratégias adequadas para alcançar os resultados, doam o máximo de si para o bem comum. E sabem que a recompensa virá de acordo com o negociado. É a liderança pela credibilidade.
Ninguém tem a pretensão de entrar no mercado e virar presidente de uma empresa em curto espaço de tempo, a não ser por parentesco em empresas familiares.
O topo é o objetivo e destino natural da competência adquirida ao longo de várias experiências, de vários acertos e erros em funções de menor peso nos resultados, de vários reconhecimentos recebidos por bons serviços realizados e que permitiram a construção de uma imagem sólida no mercado. Um currículo consistente.
A imagem sólida real é o alicerce que sustenta a convicção de qualquer profissional na possibilidade de sucesso no posto seguinte, que poderá ser o da presidência.
Somente um tonto, inconseqüente ou desesperado, aceita um cargo superior, inclusive o da presidência, sem analisar antes as condições existentes na empresa para atender ao que dele se espera. E somente outro tonto o convida para este posto nestas condições. Estamos falando do mercado das empresas privadas.
Um técnico que promete um título antes de conhecer profundamente o elenco e as condições de trabalho, está colocando em risco a sua própria imagem no mercado. É grande a possibilidade de fracasso quando se faz irresponsavelmente uma promessa maior que a realidade permite. Configura-se a condição do tudo ou nada. Costuma dar nada e conduzir a imagem do deslumbrado e do clube ao ralo. O mesmo acontece nas empresas com a criação de expectativas falsas.
Cada empresa tem a sua própria cultura, e como elas são milhares, o mesmo número de formas de trabalhar está no mercado.
Então não há receita única ou sistematizada para ser o candidato diferenciado e ideal para os que visam a atribuição maior. Como já se diz: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E uma coisa não tem nada a ver com a outra coisa, a não ser que esta última seja o clone da primeira. Complicado e não diz nada, não é? O mercado também é complicado e se escuta muita coisa parecida.
É bobagem buscar uma receita. Depende do bolo a ser confeitado, sendo que os ingredientes básicos todos os candidatos já estão cansados de enumerar. Nenhum candidato a este posto é um estagiário ou recém formado.
Será que estão em falta candidatos preparados para a função ou as exigências não são compatíveis com a realidade da empresa e do mercado em que ela se insere? Busca-se um bispo, um papa ou busca-se um santo para fazer milagre?
A empresa tem como “bancar” um papa e todos os recursos que ele solicitar?
Se o empreendimento tiver o mínimo de organização e coerência nas metas e nos prazos para atingi-las, assim como recursos adequados à disposição, então um papa terá chances de satisfazer os seus fiéis (clientes) atuais e possivelmente arregimentar outros. Nestas condições, é bem possível que existam cardeais preparados para assumir o papado. Caso contrário, só com muita fé em Deus. E como a fé não se mede e nem se comprova, não há como garantir que ela está no nível suficiente para um santo se envolver.
Quando se escolhe algum parceiro só com base em um check-list, elaborado com toda a competência e onde cada item tem uma alta exigência, é bem provável que todos os candidatos sejam reprovados em um ou outro quesito. Pode ser que a culpa não seja do mercado e sim de quem elaborou o check-list pretensioso.
Quando se procura um(a) parceiro(a) para casar ou juntar os trapinhos, visando formar uma família, é claro que alguns pré-requisitos são necessários de ambos os lados. Impossível enumera-los em vista da diversidade do gênero humano, mas o que irá determinar a possibilidade de sucesso duradouro da união é a paixão.
Somente ela, não mensurável e não objetiva, que ao longo do tempo é transformada em amor, é que permitirá a convivência feliz por muitos e muitos anos. A família constituída, com o nascimento e crescimento dos herdeiros, vai reforçando os seus laços, desde que um dos cônjuges não dê motivos para se questionar severamente a sua integridade e honestidade em períodos de alguma turbulência, inclusive a econômica.
Também no casamento a credibilidade e transparência determinam o sucesso da união.
No campo profissional isto é representado pela empatia e confiança entre os parceiros e paixão pelo projeto.
Acredito realmente que há profissionais preparados para as funções dos degraus mais altos da pirâmide. No entanto, o mercado ressente-se da falta de mão de obra especializada na operacionalização dos processos, em função da quantidade necessária. Isto reforça o que foi dito anteriormente sobre as condições técnico-operacionais para um presidente obter os resultados desejados.
Presidente não faz nada sozinho. Precisa de colaboradores competentes e comprometidos em todos os níveis. A meta só é realista se leva isto em conta.
Existe alguma razão incomum para que uma empresa não consiga preparar seus contratados para realizar a sucessão quando chegar o momento?
Todos sabemos que somente uma mudança profunda de cultura requer contratação externa. E porque uma empresa chega a este ponto?
Esta preparação deve fazer parte da política interna da empresa que busca a sustentabilidade, e estar declarada nos estatutos elaborados pelos próprios acionistas que tem visão do futuro.
Sempre existe a alternativa de trazer um profissional do exterior - um papa - que poderá atender às expectativas do acionista exigente que quer participar e vencer um campeonato repleto de ricos e poderosos concorrentes. A característica do povo brasileiro é de receber com a mais sincera hospitalidade os que vêm ao país para colaborar. Existe a humildade suficiente para tentar assimilar a experiência que ele certamente irá trazer.
A decisão cabe ao acionista. Alternativas ele tem. Só a busca do bom e barato e da rentabilidade alta com baixo risco, é que às vezes dificulta um pouco.
Vladimir Maleh
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
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