quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Quando o treinamento não resolve

Não é raro ouvir de empresários: “Eu invisto no treinamento interno, formo bons profissionais e a concorrência os contrata. Que vantagem a Maria leva? A minha empresa não é escola!”.

Realmente isto acontece. Um funcionário preparado é cobiçado pela concorrência. Também é verdade que trabalhar com profissionais menos preparados diminui os custos e não assanha a concorrência em torno deles. E de fato a concorrência não os leva.
Leva os clientes da empresa que assim procede.

Nem sempre se consegue seduzir um profissional bem preparado oferecendo um salário maior. Não é só o salário que predomina na decisão pela mudança, pois muitos deles já estão perto do topo da remuneração da função, qualquer que seja ela. Para estes, o ambiente de trabalho e perspectivas de crescimento têm um peso relevante.

E a saída dos funcionários preparados e bem remunerados, depois de treinados internamente ou não, pode estar sinalizando o não atendimento destas necessidades complementares para a satisfação destes profissionais. Aliás, é pouco provável que a aquisição das competências nos treinamentos internos seja a causa fundamental para a saída do profissional.

Então, para evitar estas saídas é preciso, além de ajudar os profissionais a adquirirem as competências necessárias, oferecer condições de trabalho que os satisfaçam, para que não sejam tentados a buscar o que falta em outro lugar. Quanto mais se investe em um profissional, mais ele fica identificado com a empresa, desde que nela o seu esforço em se desenvolver tenha resultados práticos para a sua vida profissional.

O argumento “eu já pago um bom salário e não preciso gastar em treinamento, pois é obrigação do funcionário se manter atualizado” também é verdadeiro. O funcionário deve ter este interesse e iniciativa. Só que nestes casos o funcionário poderá não se sentir motivado a aplicar as suas competências atualizadas nesta empresa.

O conceito de que o retorno só pode ser esperado após a realização do investimento se aplica também aqui. Se o funcionário investe por conta própria na sua atualização, pode querer buscar o retorno no lugar que achar mais conveniente, e uma empresa que tenha uma filosofia diferente, que investe no funcionário e depois espera o retorno, pode ter um apelo irresistível.
Se ambos investem, há chances de se estabelecer uma parceria.

O interesse pela atualização tecnológica constante vem com o despertar para esta necessidade pelas duas partes envolvidas, buscando a sobrevivência da empresa e do profissional. É o interesse mútuo. E é obvio que a excelência dos produtos e serviços depende, além dos processos produtivos, da excelência dos profissionais que os produzem. Aliás, os processos também são projetados pelos contratados.
Se hoje a empresa ainda está em operação, pode-se concluir que as competências existentes nela ainda são compatíveis com as necessidades atuais. Mas as mudanças no mercado são inevitáveis, para os dois lados.
Para o que se planeja fazer amanhã, as competências atuais são suficientes?

No planejamento do futuro da empresa, o treinamento é uma etapa essencial na busca da rentabilidade esperada. É fundamental patrocinar treinamento interno e/ou externo, para a atualização tecnológica e para a equalização das expectativas de resultados.

Os resultados futuros da empresa dependem da boa execução destes treinamentos e com a antecedência necessária que permita a consolidação dos novos conhecimentos. É uma atividade continuada, sem fim.

E o que faz uma pessoa se interessar em incorporar novos conceitos técnicos e novos paradigmas comportamentais são as perspectivas positivas que acredita poder materializar com estas aquisições. Preferencialmente na empresa atual ou, se for o caso, em outra qualquer. Ela só se comprometerá integralmente com os resultados da empresa se acreditar que ali poderá realizar os seus sonhos e que terá melhorias na qualidade da sua vida no curto, médio ou longo prazo.

E para isto a empresa precisa fazer a sua parte: acreditar no contratado e conquistar a sua credibilidade, investir no seu aprimoramento e assim abrir o caminho para estabelecer parceria. E parceria significa participação espontânea em alguma atividade. Participa porque tem satisfação em faze-lo. E satisfação faz fluir toda a criatividade.

Vamos retornar à frase inicial, “a minha empresa não é escola”. Podemos afirmar que não é o treinamento interno o vilão da história. Nestas empresas os conhecimentos técnicos adquiridos internamente somente facilitaram uma tomada de decisão que já estava em gestação.

Vladimir Maleh

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