Há um paradigma que diz “O maior patrimônio das empresas é o seu quadro de pessoal, os seus contratados”, muito utilizado pelos administradores mais experientes nos seus discursos.
Sob ponto de vista da transparência, esta afirmação é questionável.
Não se diz também que “O maior patrimônio das empresas são os seus clientes”?
O objetivo maior da empresa não é criar uma imagem positiva no mercado e conquistar a fidelidade dos clientes? Tanto é verdade que a marca de algumas empresas vale muito mais que todos os seus ativos.
Na verdade os acionistas preocupam-se mais com a imagem da marca da sua empresa do que com qualquer contratado. O que se transforma num paradoxo, pois são os contratados que trabalham para consolidar esta marca. Por outro lado, através da consolidação da marca, os contratados buscam atender é aos seus próprios interesses. Daí a interdependência.
Assumir abertamente estas prioridades é estabelecer a transparência nos relacionamentos entre os acionistas e os contratados. O paradigma inicial pode ser rediscutido.
A expressão “O maior patrimônio da empresa são os seus talentos” também é questionável.
O talento é das pessoas, que pode ou não ser colocado integralmente em prática para a empresa contratante e depende da motivação e da boa vontade dos que o possuem em colocá-lo a serviço da empresa.
Assim, o talento é “contratado” e não “patrimoniado”.
E é politicamente incorreto considerar pessoas como patrimônio. Nem no matrimônio isto vale mais.
E talento se contrata através de parceria. A parceria significa participação espontânea em alguma atividade. Participa porque tem satisfação em fazê-lo. E a satisfação permite fluir toda a criatividade.
Então, contratar um profissional, um talento, não é o suficiente. É preciso que ele tenha vontade de colocar o seu conhecimento e a sua inteligência continuamente a serviço da empresa contratante. E no início do contrato a motivação certamente estava no nível máximo, por acreditar em tudo o que foi prometido durante a negociação. Se a credibilidade não for quebrada, o nível de motivação não será alterado. E a parceria continuará.
As empresas saudáveis se preocupam não só com a execução das atividades de acordo com as expectativas, mas também em criar condições para que o profissional desenvolva todo o seu potencial. Investem no seu crescimento, ajudando-o a alcançar a sua independência profissional, o que resultará ao longo do tempo em uma contribuição maior que as expectativas iniciais. Elas buscam a sustentabilidade e não só os resultados imediatos.
Estas empresas compreendem que o comprometimento que leva à máxima contribuição é obtido mediante certas condições. Condições que produzam satisfação dos interesses dos dois lados.
Se para obter o comprometimento é preciso que o José esteja satisfeito, então é isto que precisa ser providenciado. É a função dos líderes, a começar pelo líder maior.
Então, a questão é: o que faz o José e seus colegas ficarem satisfeitos?
A rentabilidade de uma empresa está condicionada à produtividade e esta depende da eficiência dos processos que por sua vez está atrelada ao comprometimento dos parceiros contratados. E no final o que sustenta o comprometimento mútuo é a rentabilidade da empresa. Fecha-se o círculo virtuoso.
E não se deve esquecer que as necessidades para obter a satisfação são tão dinâmicas quanto o mercado. Para os dois lados.
Em um mercado de grande concorrência, a busca pelos profissionais que consigam contribuir mais ao custo atual ou contribuir o mesmo a um custo menor, torna-se uma obviedade, o que aumenta a concorrência também entre os profissionais e conseqüentemente estabelece uma tendência de remunerar os serviços com valores cada vez menores. Isto é real e é por isso que a acomodação é fatal.
Isto pode ser comprovado pela rotatividade da mão de obra nas empresas, em todos os níveis de atribuição.
O relacionamento de longo prazo praticamente inexiste, a não ser em empresas que estão continuamente crescendo, e estas estão sempre investindo no ambiente de trabalho e nas condições para o desenvolvimento do potencial (crescimento) dos seus parceiros contratados. As empresas que acreditam realmente na interdependência, conseguem sustentar a rentabilidade planejada em qualquer ambiente macroeconômico e proporcionam a estabilidade para os seus contratados e obtêm a estabilidade do seu empreendimento no mercado.
Na verdade, o “maior valor” que sustenta uma empresa é a qualidade do relacionamento interpessoal entre os seus contratados. E esta qualidade é o resultado abstrato da sinergia que se forma na equipe de trabalho, formada por verdadeiros parceiros interdependentes. A esta qualidade podemos chamar de cultura organizacional, que, por ser subjetiva, é altamente volátil, exigindo uma preocupação continuada de todos os participantes.
Os parceiros têm interesses próprios, mas um objetivo comum, que é fazer a empresa atingir os resultados planejados de forma sustentável, visando o seu próprio bem estar individual ao longo do tempo.
Esta é a transparência no relacionamento empresa/funcionário.
Sem patrimonialismo dos contratantes.
Sem dependência dos contratados.
Sem demagogia dos dois lados.
Simplesmente parceria.
Vladimir Maleh
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
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