24 de setembro de 2011

A REALIDADE CIVILIZADA E SELVAGEM

No futuro que se desenha, só a competência técnica
 não será suficiente para ser bem sucedido no mundo corporativo.
Se isto ainda não for para você, assim o será para os teus filhos.

Até onde se conhece, o ser humano é o único animal que tem sonhos e ambições. Por um lado, estes o levam a melhorar a qualidade de vida, mais sadia e mais longa. Por outro, a busca da realização das ambições leva muitos a terem atitudes nem sempre louváveis. Os conceitos de liberdade, igualdade, e fraternidade, criados pelo homem, estão ainda um tanto quanto longe de serem alcançados, mas indicam o objetivo aceito por todos no mundo civilizado.

No mundo animal, selvagem, todos os seres vivos em terra, ar e mar, estão sujeitos à lei primeira que privilegia os mais fortes com mais oportunidades para sobreviver. Neste caso, sobreviver significa literalmente permanecer vivo. Nela, os seres vivos foram tipificados em duas classes, os herbívoros e os carnívoros, sendo estes últimos também conhecidos, por uma razão óbvia, como predadores. O curioso é que os predadores não respeitam e atacam igualmente os outros predadores, usufruindo da força que a natureza deu a cada um.
Só como lembrete, o homem faz parte das duas classes.

Esta mesma lei recomenda para os mais fracos das duas classes nunca “marcar bobeira”. Quem esta recomendação desobedece, desaparece. Os nossos ancestrais também a conheciam e a respeitavam, principalmente o parágrafo que discorre sobre quando a decisão mais sensata é “dar no pé” e salvar a sua pele e o que tem dentro dela.
A expressão “ato heróico” não existia naquela época. É criação do recente mundo civilizado.

E todos os seres convivem até hoje nesta realidade e sabem de cor quando e contra quem estão prontos para se aventurar e quando convém temporariamente escafeder-se.

Por exemplo, o gato, que está no time dos predadores, deixa um tigrão em paz, não por respeito ao parentesco, mas porque sabe que há grande probabilidade de não ser bem sucedido na tentativa de saborear a vítima. Prevalece a razão na análise da relação risco/benefício. O gato conhece as suas limitações e avalia sabiamente que aquele montão de carne é só um sonho. Há objetividade na análise da viabilidade da oportunidade em questão. O vice-versa neste caso não ocorre.
Esta análise realista também se aplica no mundo corporativo. O sonho, ou o objetivo, precisa ser proporcional à capacidade em realizá-lo. Também se deve considerar que para uma capacidade grande, um sonho pequeno não sacia totalmente a fome. O tigrão que o diga.

O gato também sabe que de acordo com a lei da selva tem que ficar sempre esbelto e esperto, pois se desleixar nem chegará a ficar rechonchudinho. Virará petisco, mesmo magrinho.
A maior parte dos animais herbívoros também tem este cuidado com o seu preparo para continuar no pedaço. Esta lei de convivência entre espécies não abre espaço para exceções. Já é dito popular que para escapar do predador, o principal não é ser mais veloz que o agressor, e sim ser mais veloz que o seu companheiro de fuga.
E esta lei da sobrevivência também se aplica no mundo corporativo. Quem se acomoda tem vida curta no sucesso. É engolido pela concorrência.

Apesar desta lei ainda vigorar, de uns tempos para cá, com evolução da tecnologia, o termo “mais forte” mudou de interpretação. As armas permitiram a um “fraco”, neste caso o homem, dominar o mundo animal e também permitiram o domínio do homem sobre o outro homem, o que rebaixou a prioridade do projeto de igualdade e fraternidade. O conceito de predador se aplica ainda mais radicalmente no meio civilizado que o previsto na lei original.

A ambição de ter mais e de ser mais, levou, individual e coletivamente, a uma competição sem limites e sem fronteiras, com armas ou sem armas, e onde outros conceitos, como solidariedade, cidadania e respeito pelas diferenças, também foram deixados para os discursos.

Neste nosso ambiente civilizado você está se preparando para ser um gatinho ou um tigrão?

Caso a opção é por um bichano, não adianta tingir o pelo com listas e se fingir de filhote dos grandes felinos para ficar no seu grupo. Mais cedo ou mais tarde eles perceberão que você está demorando muito para crescer. São enormes as tuas chances de levar patada na orelha o tempo todo para ver se, mesmo sendo anão, desenvolve as habilidades necessárias à comunidade deles, antes de serem tomadas atitudes mais drásticas. Não há nenhuma graça nesta situação.

No mundo corporativo atual, se você quer ficar no grupo dos felinos grandes, deve preparar-se verdadeiramente para ser um deles e assim preservar os teus mecanismos de audição.
Agora, se a tua felicidade não está no confronto feroz com os animais grandes que andam por estas terras, crie asas e ganhe os céus. Só tome cuidado com os gaviões. Se grandes alturas te dão tontura, tente as águas dos rios ou mares. Mas antes prepare estratégias para escapar das piranhas e tubarões.

O fato é que você precisa se preparar para ser igual a eles ou então aprimorar as técnicas de defesa para circular no ambiente profissional, já que o convívio com todos é inevitável.

Tudo é uma escolha e preparação adequada. Tua.
A liberdade de desejar e sonhar também.

A sabedoria está em assumir e fazer o que realmente lhe traz satisfação, respeitando a ética do ambiente onde você vive. Só não pode ser ingênuo e tingir o seu pelo com listas. Tem que respeitar a si mesmo, isto é, o teu talento e desenvolvê-lo. Somente depois disto poderá conquistar o respeito dos outros, e aí circular no meio sem riscos. Considere que é possível ser feliz liderando ou sendo liderado. A felicidade está nos valores que você cultua.

Esta nossa realidade civilizada seria diferente se o homem valorizasse e assimilasse somente os exemplos dos animais que se alimentam de vegetais, não necessariamente só os dos cavalos com coices potentes, antas ou veadinhos saltitantes. Girafas, rinocerontes e elefantes, entre outros, também podem servir de referência. Estes circulam em qualquer pradaria e com alguns deles nem os maiores predadores se metem a besta.

Isto seria ideal porque todos os seres vegetarianos convivem em harmonia no mesmo ambiente. Não importa a espécie ou origem, a cor do pelo e nem o tamanho e as formas da cabeça, olhos e nariz. Não há preconceitos, há vida. Acreditam que no mundo há espaço, água e comida para todos. Todos eles respeitam as diferenças e, mesmo que inconscientemente, têm isto como direito básico universal.
Se pudessem falar, certamente perguntariam por que os humanos não conseguem, com a sua inteligência superior, dominar os seus instintos inatos de predador.

A evolução algum dia nos levará a este ideal.

Esta esperança é reforçada porque não se trata da evolução biológica, que é muito lenta para o nosso tempo de vida, e sim da evolução intelectual, que é a incorporação de valores através da educação, e possível de ser alcançada em grande parte em uma geração.

Alguns líderes empresariais, com visão da vida no planeta também a longo prazo e que consideram os seus empreendimentos mais do que negócios, já iniciaram a caminhada da teoria para a prática. Estes já ultrapassaram a fase da intenção e passaram para a construção do novo mundo civilizado e sustentável.

Na nova sociedade que está em construção, só a competência técnica não será suficiente para ser bem sucedido no mundo corporativo. Se isto ainda não for para você, assim o será para os teus filhos. É prudente prepará-los. Eles assimilarão mais facilmente se você der o exemplo.

Parceria é o conceito que abre as portas para a nova competência profissional e é a base para esta nova sociedade. A parceria encampa os objetivos do mundo civilizado: a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Incorpora a visão da interdependência e sustentabilidade, o respeito pelas escolhas de cada um e o respeito pela dignidade própria e alheia, para o bem estar comum.

Alguns países já estão em um estágio bem avançado, comprovando a viabilidade do projeto que no resto do mundo ainda é considerado utopia.



 

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