24 de setembro de 2011

REJANE E O MEDO DO DESCONHECIDO

Transparência, Credibilidade e Equalização das expectativas
continuam sendo as premissas essenciais
na busca e manutenção do sucesso do grupo.


Na volta de uma reunião que tive em uma empresa, passei em frente ao prédio onde tabalhava uma amiga de longa data, desde o início das nossas carreiras. Ela é psicóloga e naquela época eu trabalhava em uma empresa de treinamento e realizamos juntos alguns eventos. Depois tornamos a nos encontrar quando precisei dos seus serviços na outra empresa que passei a trabalhar. Desde o início tivemos um ótimo relacionamento profissional e pessoal. Aprendi muito com a Rejane.

Por coincidência, neste momento ela saiu do prédio para almoçar. Foi uma alegria o encontro. Decidimos ir junto comer alguma coisa.

Depois da curiosidade sobre como vão as coisas, o que anda fazendo, etcetera e tal, contei que fui conversar sobre um projeto de telecomunicações com um possível novo cliente que estava reestruturando a sua empresa, não por dificuldades, mas para dar um passo adiante.

Contei a ela que desde o instante em que o presidente desta empresa convocou os auxiliares diretos para a elaboração dos planos da nova estrutura, percebeu que o clima na empresa ficou diferente. A informação sobre a mudança próxima vazou, e aí, criou-se na empresa uma ansiedade sobre o que aguardava os “colaboradores” no futuro próximo. O famoso medo do desconhecido. E aí a empresa virou uma fábrica de especulações e boatos.

“É, isto sempre acontece” disse ela.
“O desconhecido é o espaço aberto na mente da pessoa que ainda não visualizou com que será efetivamente preenchido. A pessoa tem consciência de que há um espaço, que ela mesma criou através da sua percepção da realidade, e teme que será preenchido com hipóteses quase sempre desgardáveis ou temerárias.
No fundo não há o vazio, o espaço é preenchido pela sua imaginação com o que poderá ocorrer, quase sempre com algo desagradável ou temerário. Na maior parte das vezes, quando o “imaginado” é confrontado posteriormente com informação real, isto é, o desconhecido passa a ser conhecido, percebe-se que não havia motivos para o temor. A pergunta que fica é:  porque sofrer com antecedência?” 

“É”, respondi, “eu falo para as pessoas que até hoje não descobriram monstros no desconhecido. Porque imaginar que eles existem e tem as piores intenções? Para que fazer o exercício de preencher o vazio com eles?
Existe a possibilidade real de haver um jacaré na escuridão desconhecida. Mas o jacaré você conhece e sabe que nunca irá encontrá-lo voando acima da sua cabeça. Então sabe como evitá-lo ou enfrentá-lo. Assim como não encontrará uma piranha caçando em uma avenida da tua cidade. A ciência garante que estes fatos nunca ocorrerão. Porque imaginar o contrário?

Aí a Rejane retomou:
“O desconhecido não é necessariamente ruim. Não é melhor pensar que o desconhecido poderá trazer satisfação quando passar a ser conhecido? Porque não criar expectativas positivas? O medo também é uma expectativa, só que pessimista. E expectativa por expectativa, a otimista poderá levar à elaboração de planos construtivos, os sonhos, que posteriormente serão adaptados para condições reais. A pessimista leva à destruição de qualquer iniciativa de melhorar a realidade.”

E ela continuou.
“Na verdade o medo não é do desconhecido.
O medo vem quando não se tem a segurança ou confiança em si mesmo em lidar com possíveis fatos já ocorridos e não com o inusitado. O medo é da sua própria falta de preparo em poder enfrentar o que imagina poder vir a encontrar.
O que gera medo real é a possibilidade da repetição do conhecido, já anteriormente experimentado pela própria pessoa ou por outra qualquer, e que naquela circunstância, naquela realidade, foi uma experiência ruim, difícil de ser digerida ou tratada.”

Refletiu um pouco.
“E se pensar bem, a experiência não foi tão radical e definitiva, porque a pessoa sobreviveu, até para contá-la a outras pessoas, valorizando-a no sentido positivo ou negativo, de acordo com a sua própria interpretação.
E as pessoas que a ouviram e que não passaram por algo parecido, e portanto sem referencial próprio para a análise, incorporaram uma versão, próxima ou distante da experiência vivida pelo contador. E esta versão passa a ser para o contador e para os ouvintes, a referência temporariamente real para a avaliação das possíveis ocorrências futuras.”

Como fiz cara de quem não entendeu direito, ela explicou.
“É importante salientar que não estou falando de tragédias humanas, doenças, possibilidades de falecimentos, violências, etc,  e sim de fatos do cotidiano.
Observe como é interessante. As circunstâncias e a realidade mudam constantemente e podem determinar que a mesma pessoa, passando novamente pela mesma experiência, apresente interpretação e sentimentos diferentes. A experiência vivenciada, por si só, já determina uma mudança da percepção anterior a ela.
Desloca-se a referência para uma nova, que também será temporariamente verdadeira. É o conhecimento consolidado até aquele momento.”

Interrrompi para ver estava entendendo certo.
“Rejane, você está querendo dizer que quanto mais experiências próprias o indivíduo tem, mais próximas da realidade são as suas referências. E quanto mais fielmente ele conseguir repassar as suas interpretações, mais próximas da realidade serão as referencias dos ouvintes.”

“É isso aí”, disse ela. "E aí está o valor da experiência, em qualquer campo de atuação, pessoal ou profissional. Porque será antigamente os mais velhos eram sempre auvidos antes de serem tomadas as decisões?"

Continuei.
“Mas para isto, o contador deverá estar interessado em se relacionar com o grupo de forma transparente e confiável para o conhecimento coletivo, sem incutir medos inflados artificialmente em benefício próprio.”

“Tem sempre alguém que nestes momentos se diz bem informado para ganhar atenção” disse ela. ”Por isso é importante sempre fazer a clássica pergunta: será?”

“Então, Rejane, se o hipotético desconhecido já é o conhecido, mesmo que desagradável, não há razão para temê-lo. É só administrá-lo. A administração é uma ação consciente, certo?”.

Ela continuou.
“O futuro, o amanhã, é sempre desconhecido. E a grande maioria das pessoas, assim como a totalidade dos demais seres vivos, não fica em pânico com o dia que vai nascer. Aliás, todos torcem para que isto ocorra para eles, apesar de ninguém saber o que este novo dia poderá trazer de novidade.
Vamos transportar isto para o lado profissional.
Porque o temor das mudanças? Daniel Goleman, no livro Mentiras essencias, verdades simples já disse que “o novo, por definição, é desconhecido e a novidade é a essência da incerteza. A incerteza provoca um alarme prévio, um alerta para verificar a possibilidade da existência de uma ameaça”.
Veja, temem mais os que têm menor confiança em si mesmo em lidar com esta “possível ameaça”. É a insegurança em poder corresponder às novas expectativas na empresa ou recomeçar em outra, entendeu? 
A mudança é sempre proposta por alguém no sentido de melhorar as condições de sobrevivência da empresa ou para o seu crescimento. Ninguém tenta mudar sem um objetivo. Pode se enganar, mas a princípio imagina que sabe para onde está mudando. Quando o líder tem credibilidade e quanto melhor conseguir desmistificar e mostrar o “desconhecido” aos colaboradores, menos incertezas ou receios aparecerão no grupo que irá conviver com estas mudanças. Menos resistências existirão porque as referencias individuais estarão atualizadas para a nova realidade, o que indicará que é possível continuar obtendo a satisfação atual ou mesmo obter satisfação maior, desde que a pessoa tenha um preparo adequado que o mercado necessita.
A comunicação é vital para estabelecer referências comuns ou equalizadas. É a função dos líderes em todos os níveis.
E a partir daí é possível que todos se comprometam com as mudanças e contribuam para concretizá-las.”

E aí ela concluiu.
“Transparência, Credibilidade e Equalização das expectativas continuam sendo as premissas essenciais para a implantação das mudanças necessárias para a continuidade do sucesso do grupo.”

Como é bom conversar com pessoas que têm experiências e conhecimentos diferentes dos nossos! Vou ler o livro que a Rejane citou.

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