A combinação da arrogância com o álcool além dos limites
é desastrosa para os limites de aceitação na convivência social.
Nicolai é um amigo desde quando tínhamos 10 anos de idade. Conhecemo-nos e convivemos por dois anos em um colégio interno só para imigrantes russos. Interessante é que esta instituição era sustentada por uma organização jesuíta americana, cujos padres falavam e rezavam em russo, com pouco sotaque. Seis anos depois tornamos a conviver por 3 anos em uma cidadezinha de Minas Gerais, Santa Rita do Sapucaí, estudando na melhor escola técnica de eletrônica do Brasil - “reconhecimento que a nossa turma ajudou a construir”, reivindicava o Nicolai.
Morávamos na mesma república.
Até os 18 ou 19 anos, freqüentamos muitos eventos da comunidade russa em São Paulo, que nos anos 60 e 70 tinha um número considerável de famílias. Havia um bairro com tantos russos que informalmente era conhecido como Vila Russa, com igreja ortodoxa na rua principal, que reunia aos domingos e datas santas toda a comunidade. Nos bairros Moema e Vila Alpina as comunidades russas eram ainda maiores, cada qual com sua igreja. Corríamos atrás das russinhas destes bairros também, cujo custo era assistir em pé uma missa de 2 horas e fazer neste tempo 200 vezes o sinal da cruz, além de ouvir o coral nem sempre muito afinado. A de Moema fica ainda hoje na Rua das Gaivotas, local onde me casei. O Nicolai foi um dos padrinhos que seguraram durante a cerimônia inteira uma coroa acima da minha cabeça. A cerimônia de casamento na igreja ortodoxa russa é realmente emocionante e é exatamente igual a que se praticava há 200, 300 anos lá na Rússia, durante os tempos dos czares. Dá para imaginar? Para a família brasileira da minha mulher e demais convidados não russos, foi um “espetáculo”, comentado por muitos anos.
O Nicolai era desde a adolescência um garoto diferenciado, loirinho e de olhos azuis, assim como a sua mãe. Aliás, ele era a cara da mãe. Interessava-se verdadeiramente por literatura, assunto que para todo o resto da nossa turma era entediante. Nesta época ele já tinha lido o Tolstói, Dostoievsky, Tchecov, Pushkin – o maior dos poetas russos - e muitos outros. Influenciado por ele, cheguei a ler alguns destes autores, mas para não deixar só ele arrotar as verdades da vida. Era certamente o mais inteligente da turma e também certamente o mais arrogante. As meninas eram atraídas por seus atributos físicos e após algum tempinho, decepcionadas, caíam nos nossos braços, considerados os moreninhos “simpáticos” e “humildes”, enfim, “humanos”.
Quando ficamos adultos, o Nicolai começou a exagerar um pouquinho na ingestão de cervejinha, e isto atrapalhou um pouquinho o desenvolvimento da sua carreira de engenheiro e um pouco mais a sua vida pessoal. A combinação da arrogância com o álcool além dos limites é desastrosa para os limites de aceitação na convivência social. Os relacionamentos foram minguando, os amigos se afastando e a mulherada o evitando. A bonita embalagem trazia no frasco um ácido. “Bonitão, mas bebum e insuportável”, diziam elas.
Um tempo depois estávamos quase todos casados e com filhos pequenos e ele ainda estava à procura, sem muito esforço, da alma feminina que o pudesse compreender. Até virou pai de um moleque, também loirinho com olhos azuis como ele, porém a mãe do garoto, pelo visto, não acreditou muito que ele poderia ser um bom educador para o filho dela e puxou o carro para o Canadá, morar com a irmã que casou com um canadense.
Esta rejeição foi ainda mais sentida e deu uma desestruturada ainda maior na cabeça do Nicolai e o consolo foi um pouco mais de cerveja, que por sua vez encorajava-o a me telefonar de madrugada para “relembrarmos” os tempos de escola. Amigo único é pra estas coisas, coisa que a minha mulher não aceitava muito bem quando levava susto com o telefone tocando às 3 horas da manhã.
Esta rejeição foi ainda mais sentida e deu uma desestruturada ainda maior na cabeça do Nicolai e o consolo foi um pouco mais de cerveja, que por sua vez encorajava-o a me telefonar de madrugada para “relembrarmos” os tempos de escola. Amigo único é pra estas coisas, coisa que a minha mulher não aceitava muito bem quando levava susto com o telefone tocando às 3 horas da manhã.
“Este vagabundo não se manca! Vá conversar lá na sala”, resmungava, expulsando-me da cama quentinha.
Nestas longas conversas nas horas não muito apropriadas, eu procurava incentivar o meu amigo a moderar um pouco a apreciação da bebida alcoólica, no que ele respondia: “eu não aprecio, somente a bebo”.
Sempre tive a esperança de que, qualquer dia, algum fato poderia reverter a situação e tornar possível a volta da convivência. Esta também era a esperança da mãe dele quando se queixava do destino: “primeiro o marido que tive que largar lá e agora o filho neste mesmo processo.”
Passaram-se os anos e este fato não surgiu. O único fato é que foi diminuindo a freqüência dos telefonemas e depois ficamos sem receber mais notícias dele. “Graças a Deus e que Deus o tenha” comentava a patroa. Até pedi para rezar uma missa para ele na igreja da Rua das Gaivotas. O padre se recusou porque não havia certeza de que ele embarcou na carruagem, mas que nas suas preces matinais solicitaria que ele recebesse a graça da recuperação do juízo. Comentei baixinho com a Rosali, a minha amada: “se ele embarcou, estava a caminho da parte de cima ou de baixo do além?” Ela me encarou com olhar de desaprovação. O padre também ouviu e deu um sorriso, mas quando perguntei se é verdade que pra baixo todo santo ajuda, a minha mulher me deu um tremendo de um beliscão. O padre, mais compreensivo, disse: “vou rezar para o teu juízo também”. “Desculpe-me padre, mas se o destino para baixo já está selado, a missa poderá reverter?” Levei outro beliscão, que até hoje dói nos dias frios e um cochicho raivoso na orelha: “Não incorpore o imprestável!” Deduzi que ela se referia ao Nicolai e não argumentei, mesmo acreditando que este adjetivo poderia ser temporário. Os dois beliscões foram suficientes para despertar o meu bom senso.
Semana passada entrei em um bar na Rua Augusta para tomar um café e percebi um cara me olhando insistentemente e ele não me era estranho. “De onde o conheço”, pensei. Ele se aproximou e disse efusivamente “Não me reconhece, seu sukin cin (filho da p... em russo)?” Era Nicolai. O tempo, quem sabe com a ajuda do álcool, fez o seu trabalho: deixou-lhe pouco cabelo, um rosto meio inchado e avermelhado e com rugas salientes.
Após o abraço fraternal, contou que tinha recebido a foto do seu filho e do seu neto, que tem 4 anos de idade, e que o filho queria vir ao Brasil para conhecê-lo e apresentar o menino. A mãe, que era brasileira, nunca lhe escondera quem era o pai. O curioso é que o filho casou com uma russa.
O fato que eu torcia para acontecer, aconteceu. Não posso afirmar que o padre cumpriu a sua promessa. Não me lembro de ele ter anotado o sobrenome complicado do Nicolai. E nem o meu.
Este fato com a foto o motivou a se internar em uma clínica por 3 meses e agora só bebe cerveja sem álcool, freqüenta regularmente uma psicóloga e voltou a trabalhar, por baixo, é verdade, mas já é um começo. Espera que o filho e o neto, que devem vir no começo do ano que vem, tenham, se não orgulho, pelo menos um pouco de consideração com o esforço que ele está fazendo, em função deles, para mudar o rumo que tinha dado para a sua vida.
Disse que encontrou sem querer o meu blog na internet e achou interessante “um ou outro” artigo. Agradeci. “Pelo que li, você não mudou nada ou muito pouco na tua forma de pensar. Você continua acreditando mesmo na parceria. Na época não podia lhe contar, mas agora confesso que você era o cara com quem eu mais gostava de discutir temas filosóficos e no fundo respeitava os teus argumentos. Mas como não podia nunca perder uma discussão, para não dar abertura para os outros questionarem as minhas afirmações, às vezes eu apelava também com você.”
“Eu sabia disso, Nicolai, e também porque você apelava. Afinal, te conhecia desde a infância, conhecia as dificuldades da tua mãe para te criar e por isto relevava. Mas as outras pessoas não tinham o mesmo conhecimento dos fatos e, portanto, a paciência para te aturar. E isto virava uma bola de neve. Os relacionamentos iam para o espaço, inclusive com as moçoilas que a princípio te admiravam. Eu sabia que a tua arrogância era uma defesa, infelizmente não seletiva, porque afastava todas as pessoas. O que você não assimilava é que isto não era necessário. Não era preciso camuflar a nossa condição social, de poucas posses na época, para ser aceito. O que realmente importava e ainda importa e traz o reconhecimento e respeito é a cultura que você tem, e você tinha muita, e como a utiliza para se relacionar com os outros, e você a utilizava mal. Você continuou com o mesmo comportamento, mesmo quando a situação ficou boa. A postura de mostrar-se superior vomitando verdades e críticas só traz repúdio. E você ficou sozinho. Todos nós podemos estar certos em algumas coisas e em outras, não. E isto não nos diminui em nada. É por isto que a parceria é a forma de relacionamento que funciona. Cada qual contribui com o que tem de melhor para complementar as necessidades do grupo, para o benefício do próprio grupo. Vale o mesmo para a vida familiar.”
“Mas, e hoje, como você está?” perguntei depois do discurso, que foi mais um lamento pelo desperdício do talento potencial de um amigo.
“Os anos de uma vida um tanto quanto “irregular” fizeram o seu estrago na minha cabeça, fiquei muitos anos sem trabalhar, só bebendo e vivendo da renda do aluguel dos dois apartamentos que adquiri naquela época. Tenho algumas dificuldades de concentração, mas estou me esforçando e exercitando com a ajuda da psicóloga. Voltei a praticar a leitura e estou recuperando o prazer que tinha com os livros. Recomendo o João Ubaldo Ribeiro. O trabalho também é um desafio que obriga a focar e assim reativar o raciocínio. Cada vitória eleva a auto-estima. Enfim, estou recomeçando a viver e com esperança grande de alcançar o objetivo que é meu filho e neto não se decepcionarem comigo. Pela primeira vez na vida quero agradar, ser aceito e participar. Você estava certo quando dizia que a flexibilidade é a arte do equilíbrio entre a arrogância e a subserviência e é vital para manter relacionamentos. Mas eu chego lá.”
Pedi o meu café e ele a cerveja sem álcool.
“Voltando ao blog, a primeira parte do teu artigo “O Caboclo e a Dona Maria” reflete a forma como eu sempre pensei. A segunda reflete a tua. Mas nesta primeira parte, para deixar mais clara a relação humana, eu acrescentaria:
“As minhas homenagens a todas as mulheres. Não é por acaso que são do gênero feminino as palavras sabedoria, competência, criatividade, habilidade, perseverança, dedicação, abnegação. É o que faz este mundo girar.”
Eu não estava acreditando no que ouvia. O Nicolai mudou. Ele continuou.
“Para o gênero masculino só sobraram o Poder e o Dinheiro, que determinam para onde o mundo deve ser girado.”
“E se unirmos intimamente os dois gêneros nascerá uma PARCERIA prá lá de prazerosa.”
E completou: “Nesta parceria eu sempre acreditei.”
O Nicolai não mudou! Antes que eu pudesse esboçar uma resposta, ele logo foi dizendo: “Brincadeirinha. É só para lembrar os velhos tempos. Lembra a indignação da mulherada com afirmações deste tipo?”
Não respondi, mas lembro bem! Elas me perguntavam: “Este palhaço foi criado na zona?”
Algumas eram mais diretas, já tinham a resposta. Todas o mandavam para a Sibéria.
“Quantas possibilidades interessantes você desperdiçou com a tua postura, Nicolai!”
Depois deste reencontro, tenho certeza que este meu amigo, além de ser um exemplo de como atitudes inadequadas podem trazer conseqüências desastrosas para si e para os seus familiares, será um exemplo de como é possível recomeçar quando tudo parece estar definitivamente acabado.
Ainda bem que a missa não foi rezada.
E você, leitor ou leitora, ainda acha que as tuas dificuldades são insuperáveis? Em vez de esperar um fato novo acontecer, como o Nicolai fez por 30 anos, não será melhor criá-lo?
Só para complementar: não leve muito a sério, e se puder, releve a arrogância de algum colega de trabalho. Pode ser somente uma postura defensiva para camuflar a insegurança que ele tem em se expor por inteiro. Por baixo da máscara poderá existir uma pessoa agradável e com conhecimentos que podem contribuir para o grupo. Para descobrir, é preciso praticar a flexibilidade e lhe dar a oportunidade para se mostrar, sem julgamentos, com tolerância, sem o pé no peito dele, em prol de um ambiente de trabalho saudável, já que a convivência por enquanto é inevitável.
O Nicolai, naqueles tempos, não deixaria passar o complemento sem emitir a sua opinião: “também poderá existir um tremendo mau caráter, complexado, um egocêntrico irrecuperável. E aí, paredão com ele!”
Mas em uma coisa nós concordaríamos: é preciso investir para descobrir.
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