30 de novembro de 2011

O GENÉRICO E O ESPECÍFICO

Um fato por si só nem sempre permite chegar a uma conclusão.
É preciso avaliar o contexto deste acontecimento.

Ver as coxas de uma moça bonita quando ela cruza as pernas empolga alguns rapazes e alguns senhores. E, se, além disto, a distraída deixa ver de relance a sua roupa íntima da parte inferior ou superior do corpo, então alguns deles ficam abobalhados e tomam a iniciativa de aproximação e tomam um chega prá lá. Passei por esta fase na adolescência. Se em vez de distração, ela faz isto propositalmente, é somente jogo de cena para criar efeito na platéia em busca de admiração. Isto não mais me “anima” muito, mas prestigio com um olhar de admiração o esforço da moça que procura chamar a atenção.

Porém, quando uma mulher, moça adulta, com o biotipo compatível com o tipo que admiro, mesmo coberta por um vestido discreto, me dá uma encaradinha e um sorrisinho maroto, aí o meu coração dá sinal de vida batendo mais forte. E, se, enquanto me observa com interesse, ainda dá uma cruzada de pernas sem muita pressa, a empolgação toma conta de todo o meu ser, pois esta visão faz o cérebro disparar o PAC1 – Programa de Alteração do Corpo, nível Básico. Este programa já vem instalado no sistema operacional do cérebro, com o nome popular de INSTINTO PRIMÁRIO ou INSTINTO ANIMAL. Este programa envia comandos a todos os periféricos: os músculos principais se retesam, o pulmão se enche de ar aumentando o volume do peito, a barriga encolhe, a coluna e os ombros ficam eretos aumentando a estatura, a mão ajeita o cabelo e a garganta dá uma tossidinha para limpar as cordas vocais. Os músculos da face entram em ação, repuxam a boca para formatar um sorriso, elevam as sobrancelhas e dilatam as pupilas para que a profundidade do foco se restrinja ao objeto do desejo, desfocando todo o resto ao redor que neste momento não interessa observar (a Física, no capítulo Ótica, explica este fenômeno). Não vou descrever as alterações dos demais membros do corpo porque o texto vai ficar muito longo listando todas as veias e vasos dilatados pelo sangue agitado pelo batimento cardíaco acelerado. Ao término do PAC1 estou preparado para sair à captura da caça dando mole e entrar no PAC2, que é o Programa de Alteração do Corpo, nível Avançado. Ou será que estou hipnotizado e sendo atraído como uma presa incauta e indefesa?

Vai entender a natureza! O PAC está a serviço de quem?

Quando consultei o Nicolai, amigo que apresentei no artigo sobre a arrogância, ele respondeu de forma curta e grossa: “É a cobra que hipnotiza o rato para engoli-lo”. Já uma amiga, a Cidoca, que apresentei no artigo sobre a prática do marketing pessoal, e que tem sentimentos mais sofisticados, disse: “São dois seres de gêneros opostos procurando estabelecer contato para preencher as necessidades de carinhos físicos, calor humano e afeição, mesmo que seja só por algumas horas, quiçá mais. O PAC está instalado nos dois e eles se comunicam por ondas eletromagnéticas, alternando os papéis de caça e caçador(a).”
A Cidoca sabe falar bonito!

Uma apresentadora de programa de televisão lá na distante Rússia, que aborda temas controversos, com várias interpretações possíveis, utiliza no final do programa o bordão: “Como é difícil entender a vida!” Tem razão quando se trata de relacionamentos humanos, em todos os recantos do planeta, independentemente da raça e cultura.

O fato é que um fato como o cruzar de pernas de uma moça pode criar efeitos e interpretações diferentes nas pessoas que o presenciam. Um fato por si só nem sempre permite chegar a uma conclusão e sugerir uma ação. É preciso avaliar o contexto deste acontecimento. É preciso verificar se o fato é genérico ou específico. Se for genérico, tem um peso pequeno na maioria dos casos e possivelmente não vale a pena se aprofundar na análise. É só tomar conhecimento. Se for específico, pode ter conseqüências importantes, positivas ou negativas, e aí sim é aconselhável avaliar o contexto. Se a moça me der um olhar interessado e um sorriso ou piscadinha de olho antes de cruzar as pernocas, caracterizará um fato específico. É comigo.

No mundo corporativo, um elogio coletivo a todos os participantes após um evento de sucesso não trará grandes benefícios à maioria destes participantes. É um comunicado informando a satisfação da direção com os resultados conseguidos. É só um jogo de cena sem maiores conseqüências, empregado para criar um “clima agradável” naquele momento. Quem sonhar com promoção com estes elogios certamente se frustrará, receberá um chega prá lá.
Estes elogios não vão nem para os prontuários dos funcionários, da mesma forma que a moça não vai nem lembrar a quem atingiu com a sua ação ou distração.

Já recebi e repassei para os meus liderados os elogios de muitos diretores das empresas onde trabalhei, sempre que um sucesso era alcançado, e pouco tempo depois era solicitado a apresentar lista de dispensas, na qual certamente alguns dos participantes destes eventos de sucesso foram incluídos. “Uma fatalidade”, eu dizia aos escolhidos.

Agora, se o elogio é feito especificamente a um profissional, pela sua colaboração em uma atividade ou projeto/evento, significa reconhecimento que gera boas perspectivas para a carreira dele. Ele certamente será uma das últimas alternativas a entrar em uma eventual lista de dispensados e uma das primeiras alternativas quando surgir possibilidade de promoção.

Somente o fato específico pode ativar o PME - Programa de Massagem do Ego, que eleva o nível dos sentimentos de REALIZAÇÃO, CONFIANÇA E AUTO-ESTIMA. No ambiente profissional este programa é mais difícil de ser acessado porque requer competências e habilidades mais desenvolvidas. No ambiente social este programa é ativado automaticamente ao término do PAC2.

Esta é a transparência no ambiente corporativo que ajuda a manter os pés no chão.
Sem ilusão.

E, sendo transparente, assumo o bordão da apresentadora russa e confesso que ainda não cheguei à conclusão de quem tem razão, o Nicolai ou a Cidoca. Tendo a concluir que os dois estão certos, dependendo do contexto. E você?

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